quinta-feira, 6 de abril de 2017

O Brasil e a Globo

Desconfio que invertemos as coisas e que estamos querendo apagar o fogo da Globo com gasolina e mídia. Não é destruindo a Globo, ou determinando o que e como ela irá se ocupar do país, que se vai arrumar o Brasil.

Precisamos transformar o Brasil, apesar da atual linha editorial da Globo, da Veja e do poderio de tantos outros agentes do mal. Deixar a televisão  para os que gostam. A Veja também. Tem muita gente que patrulha, mas que não larga o osso. Como quem pensa: "você não vale nada mas eu gosto de você".

No fundo, pensam assim:

Mudar a Globo para que eu não precise trocar de canal.

Ou

Destruir a Globo para que eu enfim possa me libertar do vício da TV.

Temos que voltar às bases. Trocar conhecimento, trocar ideia. Ouvir para poder ser ouvido. Claro que é bem mais difícil, demorado, mas não será efêmero. Só mesmo o retorno às bases, pian piano, é o que poderá gerar, oxalá com bases éticas mais sólidas, o contexto para um novo governo de esquerda.

domingo, 13 de novembro de 2016

Poesia na beira de um precipício

Não fui ao lançamento de Ossos do ócio, cheguei atrasado. Mas um dia esse livro chegou até mim. Na altura, embora novo, já tinha lançado um livro de poemas  - Sonhe com os sonhos: ou o ano em que tive 18 anos. Roberta, minha contemporânea que ainda não me conhecia foi ao lançamento e eu acho que comprou um exemplar. Um dia, quando já nos conhecíamos, voltou a falar do meu livro e me perguntou se eu conhecia as poesias de seu irmão André Monteiro. Em outra ocasião, me deu um exemplar de seu primeiro livro de poemas. Li para mim e para os amigos. André tornava-se para nós uma referência literária. À sua maneira, Roberta mantinha viva a poesia do irmão que partira da cidade pra continuar seus estudos. Era ela quem nos contava das suas descobertas e dos seus êxitos pra lá de Minas Gerais. Naquele tempo em Juiz de Fora, os jovens não lançavam livros de poemas. Os livros foram ousadias inaugurais. Desde então, não tinha dúvidas: André Monteiro era para mim o poeta maior da minha cidade para a minha geração. 

Fui fazer música e canção no Banco, depois, tratei de estudar língua e literatura na Faculdade de Letras. Na Letras, pouco do espaço criado pelos contemporâneos dos trovadores elétricos do extinto ICHL. Não se distribuíam mais zines como o Urgh!. André e Anderson Pires já nos faziam falta nos idos de 2004. Saudávamos os seus sucessos acadêmicos e literários e tentávamos seguir aquela trilha que conjugava produção acadêmica e literária.

Aos poucos, fui me aproximando do André. Gostei de saber que em André, vida, poesia e produção acadêmica se conjugavam. André é antes de tudo um militante do sonho de uma vida mais plena. Sua irmã repetia um achado seu: “a vida é muita curta para ser pequena”. Atrás do mesmo sonho, superamos as expectativas. Por vezes fomos mais longe do que podíamos. No mar aberto em que ele surfava, ainda tomávamos grandes caixotes. O caminho é de cada um. Encontraríamos o nosso? 

Finalmente chega-nos uma antologia, ou melhor, uma genealogia do André Monteiro que desde o esgotado Ossos do ócio de 2001 não lançara mais nenhum livro de poesia. Nos é portanto muito esperado um novo livro do André. Atrasado, posterior a uma série de lançamentos de jovens poetas que se lançaram pela Lei Murilo Mendes, ou pelas novas editoras independentes, o livro vem com tudo. Há até mesmo espaço para relembrarmos Ossos do ócio, seu eterno retorno em nossas vidas, o momento em que “a poesia passa pela vida e descontinua a mesma“. Livro de achados preciosos de um jovem que descobre a poesia. 

Em cinco momentos, adentra-se no pensamento de André Monteiro, de fora pra dentro, da superfície pro interior, do adulto pra criança, da resposta pra pergunta. Acima, na superfície, o imediato. Em pan-flertes: escritos de esquina (2010-2013), lê-se o poeta que já entende o que é e o que não é um poema político, o que é e o que não é um pan-flerte, um poeta... Aqui também se descobre o poeta retratista, o pintor dos tipos que se arvoram grandes na nossa pequena província, o leitor crítico de Drummond, de Torquato Neto, de teoria literária e um militante de uma filosofia de vida aprendida entre a vida e a academia. André não é um poeta nascido em Juiz de Fora, mas com certeza é um poeta de Juiz de Fora, pra juiz de fora, pros que vivem aqui. Do alto de seu pensamento, o poeta escreve manifestos, contesta verdades, destrói mitos, flerta com panfletos. 

Em cima de uma prancha bem pequena, que não leva mais ninguém, enfrenta a força dos mares proibidos com a desenvoltura de quem já sabe o que quer. 

Para além do pan-flerte da primeira parte, em que o poeta surfa com altivez, regressamos ao caderninho das tormentas (2002-2005). Aqui, o poeta ainda não surfa, quase se afoga. Sabe apenas que “ao redor do buraco tudo é beira”. É minha parte preferida, onde se vê “a alegria de quem não sabe e aprende”. A alegria de quem começa a se equilibrar na sua própria prancha. Aqui, o poeta faz prosa poética em ensaios mínimos, que armam e fortalecem o mínimo eu de Ossos do ócio (1990-2000) que vem logo a seguir. Por fim, nos damos conta que o poeta mantém teso o arco da sua promessa impressa no primeiro livro.

O livro então caminha para o seu ponto nevrálgico. Chegamos enfim ao longo poema que dá nome a antologia. Cheguei atrasado no campeonato de suicídio é um manual de sobrevivência na “orquestra escura das sensações”. É o seu projeto de vida, que não furta cores, nem abismos e que não evita os riscos de uma vida em eterno devir: 

é preciso criar um modo de desviar o olhar

de todos os espelhos tristes

que nos fazem farrapos

e

mais uma vez

deixar a rocha rolar

(...)

Como velhos e valentes leões sem dentes

Não desistem de suas garras e reinos de guerra

Como crianças criam asas para os abismos

O poeta aqui nos ensina que não há porto seguro que nos faça desistir dos devires, das vontades, da alegria. É preciso criar asas para enfrentar abismos, construir pranchas e mesmo pequenino se lançar sem medo ao mar da vida. Sim, a vida e sua potência podem nos afogar, mas não há alternativa senão se deixar viver. “O suicídio é prosa/ atraso é poesia. André segue em frente, caminho para o abismo final, mas se atrasa. O atraso é o seu antídoto contra o veneno do escorpião:  “chegar atrasado é chegar sempre na hora certa/ de dobrar nosso depois”. 

Por fim, depois da afirmação de sua vontade de viver: “cheguei atrasado no campeonato de suicídio / mas ainda quero viver”,  uma ode à vida (não a morte) dos que já se foram e à vida dos que aqui estão vivos. Apesar das cicatrizes: “a festa continua/ pelas frestas da casa” em seu eterno devir, amém.

Parabéns a Laura Assis, minha contemporânea na Letras que através da sua própria editora, Aquela editora, concedeu o espaço do livro para a poesia viva de André Monteiro, que sempre irrequieta se espalhava pelos zines, no boca a boca, em intervenções poéticas em shows de música, na internet... Muita produção partilhada que não se reunia em livro algum. O seu primeiro devir, pós (e com) Ossos do ócio, vira agora um livro, e isso é mais que uma alegria. 

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Spotify X Apple Music

Logo que chegou, experimentei o Spotify. Primeiramente, em sua versão gratuita e depois na versão premium - naquele meisinho que se oferece de cortesia. Gostei, me inteirei das novidades, mas quis sair antes de ter que pagar a primeira boleta. Voltei pros meus discos, meus livros e nada mais.

Uns dois anos depois me ofertaram três meses gratuitos de Apple Music. Peguei; e gostei muito. A apple sabe do que um ouvinte sério gosta. O Itunes é de longe o melhor programa de armazenamento de música que há. Desde o layout até o modo de se organizar os discos e as cançoes, tudo é belo e funciona. Para quem tem I-Tunes, ter a assinatura do Apple Music é mesmo bem mais prático.

Gostei tanto do Apple Music que deixei chegar a boleta e segui pagando satisfeito. Tinha muito pouco tempo para me utilizar dessa ferramenta, mas era bom, no tempinho que sobrava, poder ouvir o que eu bem quisesse. E olha que eu só utilizava o aplicativo no computador, sempre no limite do alcance da minha caixinha de som com bluetooth.

Quando troquei de celular e instalei enfim o Apple Music em um aparelho móvel, foi uma revelação. Tinha comigo o que desde criança desejava, isto é, um som que tocasse o que eu quisesse, e melhor, onde eu quisesse.

Mas para mim, as canções não bastam, quero os discos, as obras, quero a ficha técnica. A Apple se resolve muito bem com as duas primeiras, o Spotify não.

O lance do Spotify é o da playlist: "músicas para um dia de sol", "músicas do momento"...não dá pra mim não. Nunca gostei muito de ouvir playlist alheia. Ainda mais essas criadas por algoritmos.  Em relaçao ao quesito ficha-técnica, acho que não sobra um elogio sequer para nenhum dos dois aplicativos.

Outro dia, meu pai, influenciado pelo meu irmão, fez uma assinatura do spotify para a família e deu de presente para mim e todos os meu irmãos. Para economizar, cancelei a minha conta da Apple Music e voltei para o Spotify.  E aqui ainda estou.

Mas tenho que admitir que sinto falta do Apple music e estou pensando em reativar minha conta. Quero ouvir mais playlist não.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Marina Lima

"...Eu sei, criança, eu sei...", "...meu bem, eu tô quase lá...".

Marina era das coisas mais interessantes que se ouvia nas rádios comercias do Brasil nos anos oitenta. Nova MPB avant la lettre, Marina Lima é matriz de muita coisa que está aí.

É mãe de muitas dessas vozes, de muitos desses sons: "mãe, tô grávida", já dizia, "grávida de um beija-flor". Hoje há dezenas, talvez centenas de beija-flores gerados também por ti, Marina. Tu que nos fundaste no que  somos: ex-pós-modernos nostálgicos de uma modernidade perdida.

Caetano, mais uma vez,  também soube ver-ouvir Marina. E quis explicitar, como sempre. Sublinhando seu lado compositora e a parceria com o seu irmão filósofo Antonio Cicero. Hoje quem lembra é o DJ Zé Pedro que a homenageia no selo Joia Moderna, em um disco de regravações de canções lado b cantadas pelas cantoras da Nova MPB.

Também é preciso voltar aos discos da Marina. Surpreende encontrar canções tão inteligentes, poéticas, femininas, naquele clima de rádio pop dos anos oitenta. Veneno e poesia.
Fica a dica.

domingo, 17 de julho de 2016

Transcaetano - Trilogia Cê mais Recanto

É com imensa alegria que compartilho aqui no blog a minha tese de doutorado, Transcaetano - Trilogia Cê mais Recanto, apresentada no Programa de Pós-Graduação em Letras- Estudos Literários, na Universidade Federal de Juiz de Fora.

Leiam aqui:


E comentem, por favor.

Agradecido,


Pedro Bustamante Teixeira.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

A NOVA MPB É FODA

                                                      "A primavera é quando ninguém mais espera                                                         e desespera tudo em flor".
                                                                                                 (José Miguel Wisnik)



Outro dia caí em tentação: disse sim aos insistentes pedidos e, comovido pela oferta que incluía três meses de gratuidade, vim parar na Apple Music. E aqui estou, outra vez. Acho que começo a mensurar a força da expressão: "maravilhoso mundo das maçãs".
Só que não. Pensando bem, a causa de todo esse maravilhamento propiciado não é o suporte, é o arquivo.

Tudo mudou porque parei para ouvir a produção dessa tal de Nova MPB. E continua bom aqui. Enfim, não sei como eu pude ignorar por tanto tempo, tantos discos excelentes, tantos músicos incríveis, tantas cantautoras. É Céu, é Tiê, é Tulipa Ruiz...Karina Buhr, Nina Becker. É Lucas Santtana, Moreno Veloso, Romulo Fróes, Barbara Eugênia, Ana Cañas, quem mais? Marcelo Camelo, Mallu Magallhães, Clarice Falcão, Kassin mais um  monte de artista brilhando por dentro. É sério, a produção dessa geração é de arrebatar. Já tem o que dizer. É tardia, mas madura e sabe o que quer. Sem peias. Flerta com o rock, com o eletrônica e, como se diz, ama MPB.
É, não dá mais para evitar o termo Nova MPB. A MPB, tal qual a conhecíamos, já era, está datada. Desculpe. Quando a forma vira fôrma é tempo de inventar outra coisa. Outro modo, outro jeito, outros sons. Poucas palavras, só pra começar. E o caldo vai engrossando, e eu aqui no meio dele ouvindo em streaming os discos dessa moçada.
Enfim, alguma coisa acontecia com a canção no Brasil lá no início do terceiro milênio, justamente enquanto discutíamos o fim da canção e endossávamos o funk, a cultura hip-hop e a música eletrônica como os gêneros da contemporaneidade. Alguma coisa aconteceu e aqui está pedindo para ser lida. Começamos a ler aos poucos. Eu já comecei. E não volto mais atrás.
A Nova MPB é foda! 


P.S: Alguém precisava falar.

domingo, 6 de dezembro de 2015

A Cor do Som no Cultural

Por conta do predomínio absoluto de shows tributos no Cultural, não sou mais, apesar de gostar muito da casa, um seu frequentador assíduo. Atualmente, e isso é uma questão política, só subo se houver som autoral.

O Cultural faz parte da minha vida e sou eternamente grato pelos grandes shows que tive a oportunidade de assistir lá. Ontem, dia 05 de dezembro, fiquei devendo mais um agradecimento à casa por poder propiciar a um público tão carente de cultura um show histórico. Ouvir A Cor do Som com a sua formação original, ou seja, ouvir Mu, Dadi, Ary, Armandinho e Gustavo se apresentando,  juntos e emocionados com a receptividade de um público de fãs, que apesar do longo recesso da banda ainda preserva consigo toda a cor daquele som, não tem preço. É coisa pra se guardar pra sempre.

Que banda, que músicos maravilhosos. Que som! Um som que não existe mais. É rock, é choro é Bahia. É canção e é instrumental. No entanto, é a parte instrumental a que pega fogo, a parte cantada é confraternização. E a plateia já sabia cada nota, cada palavra. E a banda lá de cima, afiada como se jamais tivesse deixado de estar junta, impressionava a todos, mesmo aqueles que subiram pensando ser mais um dia de tributo no Cultural. Mas não era, e era evidente. Alguma coisa acontecia ali. Não era a tentativa de se reviver algo que já tinha acontecido. Alguma coisa grande acontecia ali. Era uma noite histórica, e estava escancarada a emoção da banda.

Estavam todos prontos para mais uma vez dar o melhor de si. Muita guitarra baiana, muito moog, muitas canções, muitas vozes. Uma cozinha brasileira, Ary na percussa, Gustavo na bateria e o reforço esplêndido do eterno Menino-Deus Dadi.

Voltei com a impressão de que esse show seria apoteótico, como fora aqui, em qualquer palco do mundo. Armandinho é um Hendrix baiano, Mu é um Wakeman carioca que canta, Ary e ritmo, vigor e simpatia, Gustavo um bateirista do rock e da síncope e o Dadi é mesmo demais. É luxo só.

Como se não bastasse. Ainda tivemos a honra de contar com participação especial luxuosa do nosso Joãozinho da Percussão, ele que tocara com a A Cor do Som bem no início da banda, subiu no palco ovacionado pela banda e pela plateia e ficou até o fim do show arrebentando nas congas!

A casa não estava cheia como de costume, talvez por não ser dia de tributo, mas estava repleta de amor, de ritmo, de som, de canções e de sorrisos. Casa cheia pra mim é isso.

Viva o Brasil!
Juiz de Fora, Minas Gerais, Brazil